Nota de repúdio à violência em São Januário

Neste momento, o Rio de Janeiro está triste. Foi no sábado (08/07) que a violência gritou pra calar o esporte e a imprensa. Ao fim do jogo entre Flamengo e Vasco, um cenário de guerra se instaurou no estádio de São Januário. Diversas pessoas foram socorridas nos hospitais próximos. Um homem foi baleado e morreu. Relatos de todos os veículos já denunciam o ocorrido. Praticamente todos os radialistas nas cabines do primeiro andar foram agredidos.

RELATOS DE AGRESSÕES
O cinegrafista Benjamin Reis foi atingido por um vergalhão lançado em sua direção, quando ainda estava na cabine utilizada pela TV Bandeirantes. Somente com o apoio de um colega da Record (que teve de lutar com o agressor), Benjamin conseguiu sair. Ele foi levado ao hospital e passa bem.

Todos os cinegrafistas precisaram se abrigar nas cabines de cima, coagidos pelos agressores que pretendiam impedir as filmagens. Desde o início, alguns colocaram bandeiras em torno das cabines, mas após o jogo tentaram invadir e quebrar as câmeras (relatam Aline Nastari, do Esporte Interativo, e colegas da FOX e da Record).

Quem estava na cabine da Rádio Nacional, como o radialista Ricardo Mazela, também passou sufoco com os apedrejamentos. O colega Waldir Luiz relatou seu pavor quando um homem invadiu a área e ameaçou agredi-lo com gritos e palavrões. Pedro Ivo, da Associação de Cronistas Esportivos do RJ, divulgou que um repórter do site Globoesporte.com teria sido atacado por um membro da Força Jovem enquanto entrevistava uma vítima. “Não vai entrevistar ninguém”, disse o sujeito, ao ameaçar violentá-lo e roubar seu celular. “Foi vergonhoso”, comenta o repórter do site Rádio de Verdade, Sergio Solon. 

TRAGÉDIA ANUNCIADA
É preciso que esse escândalo sirva pra escancarar uma série de problemas recorrentes na administração do futebol carioca. O Supremo Tribunal de Justiça Desportiva e o Ministério Público Federal já encaminharam a interdição do estádio e uma punição para o clubeTambém pretendem responsabilizar a CBF e a FAERJ, já que as normas de segurança estabelecidas já não são cumpridas de forma geral pela maioria dos clubes e federações. Esse desdém de quem acha que pode continuar lucrando com o futebol violento, afasta os bons profissionais e torcedores.

Infelizmente, nem todos podem se afastar. A Agência Brasil destacou o sofrimento da comunidade local, com a depredação promovida pelos vândalos e as bombas de gás lacrimogêneo distribuídas pela polícia. Os moradores denunciam a responsabilidade de Eurico Miranda, presidente do Vasco.

Waldir Luiz confessou que não pretende voltar a trabalhar em São Januário: “Em 39 anos de profissão jamais tinha passado por uma situação tão constrangedora. Tenho família e estava fazendo apenas o meu trabalho. Já comuniquei a minha chefia que não comento mais jogo em São Januário, por absoluta falta de segurança.”  

COAGIR A IMPRENSA NÃO É NOVIDADE
Se Waldir ficará fora do estádio por opção, alguns colegas já estavam banidos de São Januário. Nossa equipe vem reunindo relatos de que é prática recorrente da gestão de Eurico Miranda chancelar as emissoras que entram ou não entram no estádio, como forma de represália. A ESPN Brasil, por exemplo, é proibida de cobrir os jogos lá. No programa Sports Center, a ESPN denuncia: “não tem como o Vasco continuar na mão do Eurico Miranda.” A administração do clube viola sistematicamente o direito à liberdade de imprensa.

Na segunda-feira após o incidente, Eurico convocou uma coletiva de imprensa na qual proibiu a presença das rádios. Em solidariedade, as televisões convidadas informaram que não compareceriam. Depois disso, a entrevista foi cancelada e remarcada, de forma aberta a todos os veículos da imprensa.
A repórter e radialista Camila Careli comentou o caso no twitter. Ela foi verbalmente agredida pelo presidente do Vasco.

SEGURANÇA OU VIOLÊNCIA?
O site NetVasco fez uma análise dos acontecimentos que precederam o caos do episódio de sábado, e mencionou problemas de segurança. Uma das denúncias é que seguranças do clube seriam membros de torcidas organizadas (algumas, legalmente banidas dos jogos). Hoje o SporTv criticou a questão (para além do vasco): 

Em vários clubes, dirigentes de oposição, de situação usam torcida para interesse próprio, e isso não é novo, não, no futebol brasileiro. Manipulam e incentivam o caos para colher os frutos lá na frente, mas que frutos são esses? É um fruto podre, contaminado. De que adianta proibir uma torcida organizada? As bandeiras, as camisas da torcida ficam na sede, não entram, mas o integrante que só quer baderna vai passando pela roleta, vai carregando o seu ódio irracional para dentro do estádio, vai carregando a bomba caseira.” 

Se há ou não membros desses grupos na segurança do estádio, não se sabe. Mas segundo o relato do repórter Bruno Marinho, do Jornal Extra, existem cúmplices. Bruno foi obrigado a entregar seu celular a alguns seguranças que o impediram de registrar imagens das brigas. Com violência, ele foi obrigado a entregar seu celular aos agressores. Todas as fotos do aparelho foram deletadas, e só então ele teve o celular devolvido. Com muito custo, Bruno conseguiu se desvencilhar do grupo ao pedir ajuda a um dos assessores de Imprensa do clube.

Hoje a ACERJ também se manifestou repudiando as agressões à imprensa, e pedindo uma reunião com o clube e com a PM. Nosso sindicato também acompanha de perto o que pode mudar para melhorar a situação a partir deste incidente. Lamentamos profundamente, porque o prejuízo, o trauma e a morte não têm volta. Cabe a nós agora pensar se é assim que queremos continuar no futebol brasileiro.

Fonte: Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro

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